Minha mãe se chamava Esther e naquela casa cheia de vozes e risadas, não havia dúvida de que era uma rainha. Como a Esther da festa de Purim, tinha firmeza no olhar e doçura nas mãos. Meu pai, Rafael, comerciante audaz, extraía mica das minas de Minas Gerais, e dela tirava o sustento e a dignidade com que criou seus sete filhos.

Primos de segundo grau, nascidos na Turquia, meus pais se casaram em Paris e atravessaram o oceano rumo ao Brasil. Entre as malas, trouxeram um grande baú comprado em Istambul. Dentro dele, minha mãe guardava o enxoval bordado pelas rendeiras turcas — fios delicados que contavam histórias de outras terras.

Sou a filha número quatro. Recordo uma infância feliz, cercada de tios, avós e primos, sempre em movimento. Estudávamos, festejávamos, sonhávamos. Mas duas festas sempre comemorávamos e tinham um brilho especial: o Carnaval e, logo depois, Purim. A cada ano a preocupação de inventár fantasias novas. Minha avó Lucie, com mãos de fada, costurava nossos trajes. O sete irmãos  acompanhados dos pais desfilávam na escola, nos salões, no clube comunitário, orgulhosos como pequenos príncipes e rainhas.

Terminadas as festas, as fantasias voltavam para o grande baú. E ali dormiam até o ano seguinte. Quando o abríamos novamente, era como se despertássemos um reino encantado. As roupas dos mais velhos já serviam nos menores — havíamos crescido! O baú era nossa caixa de tesouros, uma pequena “Meguilá” de tecido e lembranças.

Crescemos, saímos de casa, casamos. O baú foi esquecido num quarto de velharias. Até que, como na história de Purim, o destino virou a página. Ele nos acompanhou e acomodou parte de nossa biblioteca na nossa Aliá para Israel.

Hoje, da minha mesa de trabalho, vejo-o a dois metros de distância, discreto num canto da sala. Serve de apoio para minhas pequenas tartarugas e guarda, sob a tampa fechada, enfeites acumulados ao longo dos meus 65 anos de casada. Velho, antigo e cansado, ele atravessou continentes e gerações.

Em Purim, quando recordamos que nada é mero acaso e que as reviravoltas fazem parte do milagre, penso em minha mãe Esther — minha rainha — e no baú que guardou nossas fantasias. Porque a vida, afinal, também é uma festa de Purim: vestimos papéis, crescemos, mudamos de cenário. Mas as raízes, essas permanecem guardadas, fiéis, esperando apenas que alguém abra novamente a tampa da memória.

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